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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crise Civilizatória?

Crise Civilizatória
Maria Gleide Brandão Mendes

“O consumismo é impulsionado por uma rápida expansão de avanços tecnológicos que permitem empregar e gastar mal quantidades cada vez maiores de recursos naturais. Na verdade, mais do que uma crise demográfica ou uma crise de recursos, encontramo-nos diante de uma crise civilizatória".

O consumismo está diretamente ligado às sociedades capitalistas onde a produção do excedente é condição necessária para que ocorra a troca regular de valores de uso, originando um novo valor o de troca. Segundo Marx (1985) “ninguém em seu isolamento produz valores: as coisas só se tornam valores em sua relação social.” Ocorrendo a produção excedente, para troca, a utilização da natureza ocorre de forma ampliada, considerando que os homens não produzem somente o necessário para seu consumo imediato, mas para atender toda uma textura social. Nesse contexto, a produção para troca implica em uma nova relação com a natureza. Marx considerava como pecado original do capitalismo a mudança do "valor de uso" para "valor de troca".

O aumento considerável do consumo registrado na era moderna ocorre também em decorrência do conceito de que todas as coisas se tornam objeto a serem consumidos. Vive-se em um mundo em que a economia se caracteriza pelo desperdício, onde todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas tão rapidamente como surgem e desaparecem “sem jamais durarem o tempo suficiente para conter em seu meio o processo vital” (Arendt, 1997:147).

A evolução nos conceitos das técnicas de produção dos bens foi outro fator que contribuiu para que esse consumo se acentuasse e principalmente que a natureza fosse encarada pelo homem como mera fonte de bens a serem utilizados sem nenhum critério. Santos (1996) assinala que nunca houve, na história do mundo, um subsistema de técnicas tão invasor, com tal capacidade de se difundir e de se impor aos lugares e aos homens, sendo que também é a primeira vez na história que o subsistema técnico tende à unidade. Os agentes que utilizam os subsistemas mais novos são hegemônicos, enquanto os agentes homogeneizados utilizam subsistemas técnicos não-hegemônicos. Entretanto, o envelhecimento do patrimônio técnico é rápido, logo substituído por outro de maior capacidade operacional, em função da competitividade, fazendo com que equipamentos e lugares envelheçam rapidamente. Como acentua Santos (1996:177) , “não é a técnica que exige aos países, às empresas, aos lugares serem competitivos e sim a política produzida pelos atores globais, isto é, empresas globais, bancos globais, instituições globais”.

Após a Segunda Guerra Mundial, o progresso técnico e cientifico rompeu todas as proporções antes registradas relativas aos efeitos destrutivos na natureza. Essa destruição não se limitou na sua intervenção ela produziu uma "outra natureza" na tentativa de emancipar-se dela. Assim, diante da possibilidade de escassez de energia fóssil a resposta foi a tecnologia atômica: A tecnologia genética tende a substituir os métodos tradicionais de criação de animais e plantas.
Nesse aspecto, Arendt dá um passo adicional:
“não há motivo para duvidar da nossa atual capacidade de destruir toda a vida orgânica da Terra. A questão é se apenas desejamos usar nessa direção nosso novo conhecimento científico e técnico – e esta questão não pode ser resolvida por meios científicos; é uma questão política de primeira grandeza e, portanto, não deve ser decidida por cientistas profissionais, nem por políticos profissionais”
(Arendt, 1997: 11).

A “revolução ambiental”, surgida no século XX, promoveu importantes mudanças na visão do mundo. Foi aí que a humanidade percebeu que os recursos naturais são finitos e que seu uso indiscriminado pode ocasionar o fim de sua existência. A consciência ambiental adquirida com essa descoberta levou o homem a questionar a ciência e a tecnologia. Milton Santos (1996) , enfatizou o papel do capitalismo tecnológico e seu impacto no meio natural. Destacou que, hoje, a natureza sofre, antes de mais nada, um processo de instrumentalização, tornando-se um processo social e, com isso, “desnaturalizada”. Ainda referindo-se ao impacto dessas alterações, Santos , (1996: 51).enfatiza a negação da natureza natural que esses fenômenos provocam:
“No começo da história do homem, a configuração territorial é simplesmente o conjunto dos complexos naturais. À medida que a história vai se fazendo, a configuração territorial é dada pelas obras dos homens: estradas, plantações, casas, depósitos, portos, fábricas, cidades etc.; verdadeiras próteses. Cria-se uma configuração territorial que é cada vez mais o resultado de uma produção histórica e tende a uma negação da natureza natural, substituindo-a por uma natureza inteiramente humanizada”

Quanto mais poderosa é a maquinaria, mais riscos ela provoca para a vida humana e tanto maior é a pressão econômica para tirar dela mais lucro e desempenho.
Dickens, entre outros autores, apontou desde a Revolução Industrial a degradação de Londres. No século XX, a primeira grande preocupação com o potencial técnico científico destrutivo da humanidade e da natureza acontece no final da Segunda Guerra, quando o mundo foi surpreendido com o lançamento da bomba atômica em Hiroshima (66 mil mortos) e Nagasaki (39mil mortos).
Porém foi a "Doença de Minamata" que deu início ao processo de tomada de consciência ecológica trazendo a percepção de que o planeta estava sendo danificado de forma continuada. Doença provocada por poluição da Indústria Chisso Corporation que jogava lixo na Baía de Minamata no Japão. Inicialmente atacou os gatos comedores de peixes do local, que apresentavam comportamento estranho e tremores seguido de morte. Depois algumas pessoas apresentaram os mesmos sintomas. Tomiji Matsuda nasceu cego e com o cérebro defeituoso e tornou-se símbolo do movimento ecológico.

Em 1962, Rachel Carson, Livro Silent Spring - lançado nos Estados Unidos, afirma que o uso de pesticidas destrói o solo e envenena pessoas. Outros grandes acidentes ao meio ambiente aconteceram, por toda a metade do século XX:
• Dezembro de 1984 – Contaminação por 40 km2 de gás tóxico na cidade de Bhopal na Índia, provocada por um acidente na fábrica de pesticidas Union Carbide, onde cerca de 200 mil pessoas ficaram queimadas ou cegas, 10 mil morreram na hora ;
• Abril de 1986 – acidente nuclear de Chernobil, que espalhou radiação por cerca de 3.000 Km, provocando a morte de 100 pessoas e deixando outras centenas que sofrem, até hoje, os efeitos da radiação.
Tudo isso fez com que o assunto fosse discutida por Grandes Empresas e População porém os problemas persistem tendo em vista que a problemática está baseada na estrutura econômica vigente.
Castells (1999: 141) afirmava: “ A maioria de nossos problemas ambientais mais elementares ainda persiste, uma vez que seu tratamento requer uma transformação nos meios de produção e de consumo, bem como de nossa organização social e de nossas vidas pessoais”
Apesar dos discursos ecológicos serem contraditórios e diversificados eles possuem um ponto em comum: o assunto é uma questão de sobrevivência e relevante, Harvey, (1996).
Nosso dia a dia está repleto de exemplos que confirmam essa situação:
• Utilização em grande escala de produtos descartáveis (copos, pratos, talheres, fraldas e tantos outros) que provocam um acumulo considerável de lixo e demandam grandes quantidades de matéria prima na sua produção.
• As alterações, a cada estação, das tendências da moda, o que faz com que as peças de vestuário e calçados sejam consideradas produtos semidescartáveis.
• As rápidas alterações tecnológicas que acontecem nos produtos, principalmente na área da informática demandam matéria prima constante e geram um acumulo de lixo todo dia.
Todos esses fatos e fatores aliados a outros, aqui não comentados, confirmam a afirmação que o consumismo é alimentado pelas rápidas transformações tecnológicas e pelo cultura de consumo imposta pelo sistema capitalista, onde são mal empregadas grandes quantidades de matéria prima e estimulado o descarte de produtos que ainda possuem vida útil. Estamos sim diante de uma crise civilizatória.

Referência Bibliográfica
BERNARDES, Júlia Adão e FERREIRA, Francisco Pontes de Miranda in Sociedade e Natureza

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